Um tigre, dois tigres...
Fernando Fernandez
 
 

Grandes felinos, como tigres, onças e pumas, sempre foram alguns dos maiores favoritos dos amantes da natureza. São admirados pela sua força e agilidade, pelo temor que inspiram e por sua beleza. De qualquer forma, é um paradoxo o fato de que, apesar de todo o carisma desses animais, até recentemente sabíamos bem pouco sobre eles. Há algo de misterioso na natureza dos gatos em geral e, os grandes gatos em especial, sempre foram bichos muito relutantes em dividir seus segredos conosco.


Muitos biólogos começam suas carreiras querendo trabalhar com felinos e outros grandes mamíferos e acabam desistindo e indo trabalhar com outros bichos, como roedores, aves ou insetos. Esses animais menores são mais fáceis de capturar e de manusear, mais baratos de estudar e permitem obter números amostrais maiores. Talvez, mais importante que tudo isso, nós conseguimos ver os pequenos animais. Grandes felinos – à exceção dos leões nas savanas africanas – são animais reservados e inteligentes que raramente se deixam observar passeando por aí.


A primeira vez em que muitos de nossos ancestrais se depararam com um tigre, deve ter sido a última coisa que viram. Já os biólogos costumavam vê-los apenas nos raros casos em que, por exemplo, uma onça é capturada numa armadilha, ou nos episódios mais raros ainda, em que se tem a sorte de ver um bicho desses andando na natureza. No mais, qualquer pessoa que persistia em estudar grandes felinos precisava de vastas doses de paciência, abnegação e imaginação para passar anos só “vendo” seus bichos através de pegadas, fezes e bips ritmados do sinal de um receptor de rádio.


É claro que, apesar dessas limitações, gerações de abnegados fizeram um trabalho admirável e aprenderam muita coisa sobre os grandes gatos, através dos tais estudos baseados em pegadas, fezes e bips. No entanto, estudos assim geralmente não conseguem estimar de maneira acurada quantas onças ou pumas há em cada reserva, o que é uma das informações mais cruciais para sua conservação e manejo. Também não conseguem nos dar detalhes da vida cotidiana desses animais.


Nos últimos anos, tudo isso está mudando com uma verdadeira revolução causada pelas armadilhas fotográficas. Essas, na verdade, são câmeras colocadas no habitat dos bichos, com sensores de movimento ou de calor que as fazem disparar quando um passa por perto. Elas têm registrado imagens espetaculares: pumas cujos olhos parecem duas lanternas; onças surpreendidas no momento de matar uma paca; e por aí vai. Mas o potencial desse método vai muito além das imagens inéditas. Algumas vezes, os pesquisadores instalam duas câmeras em cada lugar, uma de frente para a outra, para que o mesmo animal seja fotografado simultaneamente pelos dois lados. Isso permite o que antes parecia impossível: fazer um estudo de captura-marcação-recaptura.


Com isso, são possíveis estimativas populacionais acuradas de grandes felinos, informação crucial que antes não tínhamos. O que é melhor, estudos assim podem ser feitos sem precisar da captura (rara, cara e estressante para o animal) para se colocar a marcação. Cada indivíduo de onça, lince ou tigre tem um padrão particular em suas rosetas, pintas ou listras, que permite que ele seja reconhecido com relativa facilidade. Gatos pintados já vêm marcados de fábrica.


Tigres de menos


Em um trabalho publicado recentemente na revista Biological Conservation, os cientistas indianos Aparajita Datta, M.O. Anand e Rohit Naniwadekar usaram armadilhas fotográficas para estudar a abundância de grandes mamíferos no Parque Nacional e Reserva de Tigres Mandapha, no norte da Índia, entre 2006 e 2007. Mandapha é uma de quatro reservas estabelecidas no norte da Índia especialmente para conservar o majestoso e ameaçado tigre indiano (Panthera tigris tigris). É uma reserva bem grande, com 200 mil hectares, um pouco maior que o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Os pesquisadores indianos distribuíram suas câmeras pelo parque inteiro, com 1.537 câmeras-noite - número de câmeras x número de noites em que elas estiveram armadas, descontando-se as que tiveram problemas de funcionamento. Como quaisquer pesquisadores, certamente esperavam obter ótimas fotos do maior e mais imponente de todos os grandes gatos.


Ao analisarem as imagens, havia o espetacular leopardo nebuloso (Neofelis nebulosa), o muntjac (Muntiacus muntjak), um parente dos cervos, porcos-selvagens (Sus scrofa), alguns carnívoros pequenos, macacos e porcos-espinhos. Mas, nada de tigres.


Datta e seus colegas tiveram o cuidado de considerar a hipótese de que eles não tivessem obtido imagens de tigres porque a amostragem tivesse sido insuficiente. Para isso, usaram um modelo estatístico simples, baseado na relação entre probabilidades de fotografar tigres e densidades conhecidas de outras populações da espécie. Com isso, estimaram o número máximo de tigres em Mandapha na hipótese mais favorável possível – ou seja, que um tigre fosse detectado na 1.358ª armadilha. Os pesquisadores calcularam que Mandapha teria um máximo de 1,3 tigres.
Um tigre, dois tigres, 1,3 tigres. O velho quebra-língua agora soa triste. Mesmo que ainda haja de fato algum tigre lá, o que não parece provável, não é preciso ser um especialista em biologia da conservação para perceber que uma população de um não é viável. Um dia o bicho vai morrer de velho sem nunca ter acasalado. Isso, claro, se não o matarem antes.


O mais triste é lembrar os tigres estão no próprio nome de Mandapha. A reserva foi estabelecida por causa deles. Ainda no início da década de 1990, Mandapha tinha uma abundante população de tigres. Depois disso, os números caíram e, de 2002 para cá, mais nenhum foi visto. Pior, Mandapha é a segunda das quatro reservas de tigres onde os tigres se extinguem – depois de Sariska, em 2004. As reservas ainda estão lá e, se o governo indiano é parecido com o nosso, vai usar as imagens de satélite para dizer que está preservando. Mas se os grandes felinos não conseguem sobreviver nas reservas feitas especialmente para eles, algo está muito errado.


Tigres são vítimas da ignorância. Em alguns lugares da Ásia, especialmente na China, a tradição local diz que produtos de tigre são afrodisíacos. Conversa pra boi dormir e pra tigre morrer. O fato é que há uma grande demanda por partes de tigres, que alcançam altos preços. Caçadores profissionais, vindos da vizinha Myanmar, invadem silenciosamente os parques da Índia para matar tigres sob encomenda, para que comerciantes chineses possam manter seu tráfico de ilusão.


Condenação termodinâmica


A triste situação dos tigres do norte da Índia reflete o que está acontecendo com os grandes gatos, com pequenas variações, em vários pontos do planeta. No mundo moderno, eles estão sitiados, acossados, espremidos em pequenos pedaços de habitat remanescente cercados por um mar de gente. As leis da termodinâmica determinam que eles sejam poucos e necessitem de muito espaço, e isso está na base de muitos dos seus problemas.


Que diabo as leis da termodinâmica têm a ver com isso, você pode estar se perguntando. Os grandes felídeos, pode-se dizer, estão no topo de uma das idéias básicas da ecologia: a das pirâmides de energia. Todos os seres vivos podem ser divididos em produtores (capazes de produzir seus próprios corpos a partir de gás carbônico e água, por fotossíntese), consumidores primários, secundários, terciários e por aí vai. Os consumidores primários se alimentam dos produtores, os consumidores secundários dos primários, e assim por diante. Na natureza, apenas uma pequena fração da energia disponível em cada um desses “níveis” passa para o próximo nível, o que é chamado “a lei dos dez por cento”. Esse percentual na verdade varia um pouco, mas não surpreende que seja pequeno, pois é óbvio que muito da energia que nós mesmos absorvemos não é acumulada no nosso corpo. Se não fosse assim, cada um de nós pesaria várias toneladas!


Os grandes gatos, que são exclusivamente carnívoros, estão no topo da pirâmide -– ninguém vive de predá-los. Graças à lei dos dez por cento, pouquíssima energia chega até seu nível. Como evoluíram para um grande tamanho, o que lhes permite dominar suas presas, a pouca energia que chega é dividida em um pequeno número de “pacotes” grandes. Por isso, os grandes felinos são poucos. Por isso, para ter populações com esperança, precisam de áreas grandes. Simples assim, consequencias inevitáveis de leis da natureza.


Mas no nosso mundo moderno, superpopuloso e fragmentado, parece não haver mais lugar para eles. Áreas naturais grandes são cada vez mais raras e a pressão sobre elas é cada vez maior. Por exemplo, muitas das principais presas de onças – antas, porcos do mato e pacas – são caçadas dentro das poucas unidades de conservação do Sudeste e Sul do Brasil. Quando suas presas escasseiam, as onças saem da mata e atacam gado do lado de fora, porque não lhes restou mais nada. Aí são mortas em represália. Para as onças, se correr o caçador pega, se ficar o bicho não come.


Uma imensa ironia


Quando pensamos em conservar felinos, além de pensar no que são, é preciso também pensar no seu papel nos ecossistemas. Como predadores de topo, grandes felinos fazem o que os ecólogos conhecem como regulação “de cima para baixo”. Predadores de topo regulam a populações de suas presas, nos níveis mais baixos da pirâmide. Com isso, impedem que uma espécie que seja a melhor competidora entre as espécies de presa se torne tão abundante a ponto de excluir as demais.


Esse mecanismo parece ser bastante geral em ecologia. Por causa dele, a presença dos grandes predadores é essencial para manter biodiversidade. Quando um ecossistema perde seus predadores de topo, perde muito mais que eles: perde uma série de interações ecológicas que permitem que aquele ecossistema funcione da forma como ele evoluiu. A perda dessas interações, por sua vez, tende a conduzir a perdas de biodiversidade. Não é à toa que John Terborgh, um dos maiores biólogos da conservação da atualidade, tem defendido tão obstinadamente a importância dos grandes animais para a conservação. Os grandes gatos não são só animais carismáticos, sem os quais a natureza nos pareceria mais pobre e mais vazia. Eles têm um valor para a conservação que vai muito além deles mesmos.


Mas não foi só a Ciência que descobriu o imenso potencial das câmeras para entender a vida desses animais. Há poucos meses, o televisivo Fantástico colocou dentro das nossas casas imagens de alta qualidade mostrando a vida cotidiana de uma família de tigres, com uma fêmea alimentando seus filhotes, ensinando-os a caçar, disputando território com outros tigres. Essas imagens impressionantes foram obtidas por câmeras levadas na tromba por elefantes asiáticos especialmente treinados. Ver a vida dos tigres dessa forma, com todos os detalhes, com um cotidiano ao mesmo tempo tão complexo e tão diferente do nosso, com seus próprios problemas, seus próprios dramas e suas próprias alegrias, é um privilégio que nenhuma outra geração da história tinha tido.


O mundo observado pelos olhos de um tigre é um outro mundo, um mundo do qual nunca fizemos parte. É como se esse mundo estivesse sempre ao lado do nosso, mas não tivéssemos como olhar para ele. Agora temos. Nunca como agora tínhamos tido essa chance de sentir empatia, e não só medo ou admiração, por esses animais tão reservados e misteriosos. Seria uma imensa e trágica ironia se os perdêssemos logo agora.

 

Fonte: O Eco

 
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